2 de setembro de 2015
Para a gestão da política monetária pelo Banco Central, 2015 já foi e 2016 deverá ser repensado com urgência em função da guinada de cenário imposta pela decisão do governo de trabalhar com um orçamento deficitário e, sobretudo, explicitar esse déficit. O projeto do orçamento foi encaminhado ontem ao Congresso Nacional pelos ministros da Fazenda e do Planejamento.
A política fiscal __ uma das premissas consideradas pelo BC para definir a taxa básica de juro no médio e no longo prazo __ sofreu ajustes radicais nos últimos dois meses. Para 2016 __ ano que já está no radar das decisões de política monetária __ a meta oficial de superávit primário saiu de 2% do PIB para 0,7% e acabou convertida a déficit de 0,5% do PIB na sexta-feira passada.
Ainda que esse declínio não interfira na definição da Selic de setembro, que será definida nesta quarta-feira, ou na Selic de outubro ou na de novembro __ taxa que fechará 2015 __, a nova indicação para as contas públicas no ano que vem muito provavelmente vai fazer diferença mais adiante, porque a percepção de risco oferecido pela economia brasileira mudou. E para pior.
Ter determinada meta fiscal e não cumprir é uma coisa. Ter meta relativamente baixa e não cumprir é outra coisa. Mas ter o desprendimento de apresentar meta negativa, portanto, anunciar com antecedência de um ano e meio que a economia nacional sofrerá mais uma retração pode ser honesto, invejavelmente franco, mas é insensato.
Uma equipe econômica que antecipa a frustração de um objetivo, indiretamente, dá aos adversários __ e eles sempre existem porque existem defensores de outras políticas __ munição para lutar contra a equipe constituída. Uma leitura de ‘meta’ de déficit ou de resultado deficitário por antecipação não deixa de ser uma confissão de incapacidade ou acomodação para tentar fazer o superávit.
E a decisão de anunciar a perspectiva de resultado fiscal deficitário em 2016, talvez apressada pela tensão política que vem sufocando o país, acabou por desgastar um pouco mais o crédito do ministro da Fazenda. E só isso já seria suficiente para encarecer um pouco mais o ajuste fiscal. Mas o déficit orçamentário do ano que vem trouxe à cena o risco de perda do grau de investimento.
Reinaldo Le Grazie, CEO da Bradesco Asset Management (Bram); em entrevista exclusiva a Lucinda Pinto, coordenadora de Mercados do Valor PRO, disse que esse risco ainda não está completamente contemplado nos preços do mercado, o que significa que esse evento tem potencial para deteriorar ainda mais as condições do mercado financeiro e dos ativos. “Se o Brasil perder o grau de investimento, a venda de titulos vai aumentar, a taxa de juros subirá e o câmbio vai desvalorizar mais", prevê.
Embora veja ajustes econômicos importantes já implementados, como o dos preços relativos, a reversão da desoneração da folha de pagamento e mudanças nas regras do seguro-desemprego, Le Grazie diz que a instabilidade política impede que a confiança seja retomada. Para ele, o quadro político conturbado afeta muito mais diretamente as condições de negócios do que as incertezas vindas da China e até mesmo a perspectiva de alta de juros pelos Estados Unidos. Sem confiança, diz, o investidor mantém uma atitude defensiva, optando por ativos mais líquidos e de curto prazo. Quadro que pressiona o dólar e os juros e mantém o investidor afastado da bolsa.
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